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Prevenção de malária para brasileiros viajantes do Brasil para a África do Sul

  • Paulo Behar
  • 9 de jan.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 19 de mar.

Porto Alegre, 19 de dezembro de 2024.


Um dos motivos de consulta com médico infectologista é a necessidade de orientação sobre prevenção (profilaxia) para malária em contexto de planejamento de viagem de férias para alguma área endêmica de malária do planeta. E este texto é um retorno a uma consulta de uma família que se organizou para uma viagem de férias à África do Sul.


Turista brasileiro aplicando repelente de mosquito na África do Sul para prevenir malária.

As informações aqui apresentadas se referem a um destino específico, num período específico, com um roteiro específico e atividades especificamente programadas. Estas informações podem entretanto ser aproveitadas para outras viagens quanto às medidas não farmacológicas e quanto ao uso de repelente, após considerar e ajustar o outro planejamento de viagem de férias, turismo ou viagem de trabalho de curta  duração. O uso de medicamentos para prevenção de malária, a quimioprofilaxia, é um assunto controverso, sem consenso entre os diferentes países. O Ministério da Saúde do Brasil não recomenda quimioprofilaxia para viajantes de área não endêmica para área endêmica de malária, sejam estas viagens dentro do país ou para o exterior.


Tópicos abordados no texto


1 — Estadia em área de malária

2 — Tipo de malária local predominante

3 — Profilaxia para malária

4 — Resumo das recomendações


1 — Estadia em área de malária


A área de malária incluída no roteiro desta viagem é exclusivamente o Parque Nacional do Kruger. As figuras abaixo mostram que o este parque é a única área de malária da África do Sul. E está prevista uma estadia de 4 dias neste local.



Parque Nacional do Kruger: área com risco sazonal de malária
Parque Nacional do Kruger: área com risco sazonal de malária




Profilaxia de Malária na África do Sul
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A área do Parque Nacional do Kruger é uma área sazonal de malária que oscila entre médio e alto risco. O período de alto risco é o de setembro a maio. Assim sendo, os dias programados nesta viagem para permanência lá, estão dentro na faixa de risco mais elevado.


Esta viagem de férias para a África do Sul começará no dia  22/12/2024 e a data da volta será no dia 03/01/2025, sendo o tempo de permanência total de 15 dias aproximadamente, dependendo dos horários de vôo de ida e de volta.



2 - Tipo de malária local predominante


O CDC de Atlanta e a Organização Mundial de Saúde informam que a malária predominante no Parque Nacional do Kruger é a malária por Plasmodium falciparum e o período de incubação dessa espécie é de de 8 a 12 dias, segundo o Guia de Tratamento da Malária no Brasil, do Ministério da Saúde, 2020.


3 — Profilaxia para malária para viajantes


A profilaxia da malária pode ser feita com medidas gerais, vacina e quimioprofilaxia. As medidas gerais são unanimemente recomendadas. Vacina não está ainda indicada no momento, no contexto de viagem. E quanto ao uso de medicamentos, não há consenso mundial. É ainda controverso o uso de medicamentos para a prevenção. Países da América de Norte e da Europa recomendam a quimioprofilaxia; o Ministério da Saúde do Brasil, não.


Por causa da ampla distribuição da rede de diagnóstico e de tratamento para malária no Brasil, não se indica a quimioprofilaxia para viajantes em território nacional segundo o Guia de Tratamento de Malária no Brasil, página 62, ano 2020. Como a quimioprofilaxia não é plenamente eficaz, e havendo a rede que existe no Brasil, é considerada melhor opção fazer o diagnóstico clínico e etiológico da malária precocemente e o tratamento precoce do que uma quimioprofilaxia insatisfatória. Da mesma forma, outros países que são área endêmica para malária adotam estratégia semelhante a que é usada no Brasil. É comum, entretanto, que países onda a malária não é endêmica recomendem quimioprofilaxia para seus cidadãos que viajam para as áreas endêmicas aqui do Brasil e também para o Parque Nacional do Kruger, nosso foco de esclarecimento no momento. Desconheço outras recomendações nacionais que indiquem quimioprofilaxia para malária para brasileiros que viajem para outros países onde a doença é endêmica.


O Ministério da Saúde do Brasil não possui diretrizes específicas publicadas sobre a profilaxia da malária para viajantes à África do Sul. No entanto, há profissionais que optam por se embasar em diretrizes internacionais, como as do CDC. Nesse sentido, para as áreas que incluem os distritos de Mopani e Vhembe na Província de Limpopo, o distrito de Ehlanzeni na Província de Mpumalanga, e o distrito de Mkhanyakude na Província de KwaZulu-Natal, bem como o Parque Nacional Kruger, a quimioprofilaxia que o CDC recomenda inclui atovaquona-proguanil, doxiciclina ou mefloquina.


Situações de risco elevado de transmissão de malária:


  • Destino que inclua local com níveis elevados de transmissão de malária e/ou transmissão em perímetro urbano

  • Atividades ao pôr do sol ao amanhecer

  • Acomodação que permita contato com mosquitos: dormir ao ar livre, em acampamentos, barcos ou habitações precárias sem proteção contra mosquitos

  • Período da viagem maior que o período de incubação da doença, ou seja, permanecer no local tempo maior que o período mínimo de incubação da doença (sete dias para malária falciparum)

  • Viagem próxima ao início ou término da estação chuvosa

  • Destinos até 1.000 m de altitude

  • Acesso ao sistema de saúde no destino distante mais de 24 horas de viagem


A família em questão, se encaixa am algumas dessas situações. Assim, no final do texto, vou resumir as recomendações recomendadas para esta família a partir dessas informações apresentadas acima.



Apresentam risco elevado de doença grave:


  • Indivíduos provenientes de áreas onde a malária não é endêmica

  • Crianças menores de 5 anos de idade

  • Gestantes

  • Idosos

  • Esplenectomizados

  • Pessoas com imunodeficiência

  • Neoplasias em tratamento

  • Transplantados


Quanto aos itens acima, a família que consultou infectologista, se encaixa no primeiro item somente.



As medidas gerais de proteção contra picada de insetos são:


  • Pedir informação aos guias turísticos e pessoas locais sobre o horário de maior atividade de mosquitos de malária, do pôr do sol ao amanhecer

  • Usar de roupas claras e com manga longa, durante atividades de exposição elevada

  • Usar de medidas de barreira, tais como telas nas portas e janelas, ar-condicionado e uso de mosquiteiro impregnado com inseticida de longa duração

  • Levar e usar repelente à base de DEET (N-N-dietilmetatoluamida) que deve ser aplicado nas áreas expostas da pele, seguindo a orientação do fabricante. Em crianças menores de 2 anos de idade não é recomendado o uso de repelente sem orientação médica. Para crianças entre 2 e 12 anos, usar concentrações até 10% de DEET, no máximo três vezes ao dia, evitando-se o uso prolongado.



4 — Resumo das recomendações e considerações finais


As recomendações apresentadas acima não se aplicam para toda a estadia na África do Sul; se aplicam somente para os 4 dias de permanência no Parque Nacional de Kruger.


Evitar atividades fora do hotel ao pôr do sol ao amanhecer. Neste período procurar ficar em ambiente interno em acomodações livres de mosquitos. Pedir informação aos guias turísticos e pessoas locais sobre o horário de maior atividade de mosquitos de malária, do pôr do sol ao amanhecer. Nessa conversa, aproveitar para perguntar se no momento tem havido casos de malária adquirida no parque recentemente. Perguntar também sobre os melhores locais de atendimento para a eventualidade de alguém da família vir a apresentar febre. Onde as pessoas consultam na região quando desenvolvem febre? Quando há suspeita de malária? Qual o nome, telefone, endereço da instituição de saúde? Qual a distância até lá, em tempo e em kilômetros?


Usar de roupas claras e com manga longa, durante atividades de exposição elevada. E, nas áreas expostas da pela, usar repelente à base de DEET.


Recomendo que vocês reservem os últimos dias do tempo total da viagem para a estadia no Parque Nacional de Kruger com a finalidade de usar a vantagem do período de incubação de 1 semana que costuma ser o período de incubação da malária falçiparum, mais prevalente na região. Se for inevitável contrair malária, é melhor diagnosticar e tratar PRECOCEMENTE (IMEDIATAMENTE) aqui em Porto Alegre na volta da viagem.


E na volta, até o período de 1 ou 2 meses, no caso de surgimento de febre em qualquer um dos membros da família, consultar imediatamente, informando que estiveram em área endêmica de malária.


Malária é uma das doenças controladas pelo Ministério da Saúde e seus representantes locais como a Secretaria Estadual e a Municipal de Saúde. Desse modo, os medicamentos antimaláricos e sua dispensação são conformes ao Programa de Malária. Mesmo sabendo que não são disponibilizados para profilaxia no Brasil, contatei a SMS de Porto Alegre que também informou que o Ministério da Saúde do Brasil não recomenda a quimioprofilaxia para malária; recomenda entretanto as demais medidas de prevenção apresentadas acima.



Referências


Yellow Fever Vaccine & Malaria Prevention Information, by Country, CDC Yellowbook. Mark Gershman, Rhett Stoney (Yellow Fever) Holly Biggs, Kathrine Tan (Malaria)

South Africa, CDC Yellowbook. Lucille Blumberg, Amy Herman-Roloff

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Tratamento da Malária. 2020.




Paulo Behar



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